CANNABIS, um recurso natural. 

      Auto-retrospectiva com a Cannabis.
 

No dia 10/03/2020, entrou em vigor a resolução da Anvisa que regulamentou no Brasil a fabricação, importação e comercialização de produtos derivados da cannabis para fins medicinais, sendo necessário apenas a prescrição médica para comprar farmácia ou para obter a permissão para a importação. 


Até então estava em vigor uma resolução de 2014 que restringia a prescrição - de forma compassiva - como a última opção nas situações onde todos métodos já conhecidos não apresentam resultados satisfatórios para pacientes com doenças graves, ou seja, sem alternativa terapêutica com os produtos registrados no país. 

Acredito que o ano de 2014 também foi marcado pela defesa da legalização da maconha, durante a campanha presidencial do candidato Eduardo Jorge, pelo Partido Verde. E logo depois, comecei a ver algumas notícias sendo divulgadas na grande mídia sobre os primeiros casos no mundo de pessoas que estavam tendo resultados muito positivos utilizando extratos  à base de cannabis no tratamento de diversas patologias. E, rapidamente, as notícias sobre o assunto começaram a se espalhar por todos os lugares do mundo, até chegarem no Brasil; e junto com elas, os casos das primeiras famílias que optaram pelo uso terapêutico da cannabis como alternativa no tratamento de diversas doenças. Começaram a surgir, então, associações de pacientes de cannabis medicinal.

Enquanto escrevo esse texto, relembro com muita emoção o momento em que meus olhos se abriram para essa planta e, buscando respostas para as dúvidas que surgiam, comecei a estudar todo potencial terapêutico, industrial e social da cannabis. Todavia, nunca imaginei que, em alguns anos, o extrato artesanal de cannabis que produziríamos em casa seria responsável pela qualidade de vida da que minha mãe tem hoje (após diagnóstico de tumor cerebral), como também, nunca imaginei que  anos depois, eu estaria filiado ao Partido Verde, iniciando um novo capítulo nessa antiga história de coragem e luta, que foi iniciada com Fernando Gabeira, Carlos Minc e Eduardo Jorge, grandes homens da nossa política.


Em 2017, após cair em casa e bater acidentalmente com a cabeça no chão, minha mãe procurou um hospital onde foi pedido um exame de ressonância preventivo e foi surpreendida com o resultado tumor cerebral e a notícia de que o único tratamento existente para tal tumor seria: cirúrgia. 

Muito preocupada com o diagnóstico do tumor e com as graves sequelas irreversíveis que poderiam acontecer com a cirurgia, somado a dependência vitalícia de diversos medicamentos para controlar os hormônios, ela decidiu se recusar a fazer a cirurgia, mesmo não havendo nenhuma outra opção como alternativa. Após essa decisão de não se submeter ao procedimento cirúrgico, ela ficou muito preocupada e deprimida, em pouco tempo o mau humor causado nela pela doença contagiou toda família e não havia nada o que fazer para melhorar a situação. 

Foi muito difícil para minha mãe superar o preconceito que conviveu com ela durante muito tempo até ela se permitir “abrir a cabeça” para o tratamento com o extrato a base de cannabis, depois de ter relutado por bastante tempo, desde o diagnóstico.

Minha mãe sempre foi avessa ao uso de drogas ilegais e também das legalizadas como os remédios, bebidas alcoólicas  e o tabaco, assim mesmo, por ela ser biomédica e por não haver nenhum outro tratamento que não fosse cirúrgico eu tinha esperança que ela me ouvisse e aceitasse pelo menos a pesquisar sobre a cannabis medicinal.

 

Não foi fácil explicar para ela que cannabis era a maconha, mas eu insistia e enviava para ela ver pesquisas cientificas e também depoimentos de pessoas que usavam para diversas patologias, mas não encontrava nada especifico sobre o tumor que ela tem, ela já havia visto que era usado como: anticonvulsivo, anti-tumoral, anti-cancerígeno, anti-inflamatório… continuei pesquisando e enviando tudo que encontrava  para ela ver, até que achamos um vídeo com depoimento de uma mãe que conseguiu a redução de um tumor cerebral semelhante ao da minha mãe com a maconha medicinal, então finalmente ela aceitou experimentar. E agora? Me perguntei.

Não é fácil mudar uma cultura quase secular de hipocrisia e criminalização de uma planta. A mesma planta que garante a qualidade de vida da minha mãe e de muitos outros pacientes pelo mundo, que também encontraram nessa planta a cura ou um alívio na dor, ao menos. 

Como já foi dito no inicio do texto, em 2017 haviam poucos médicos que faziam a prescrição compassiva somente de medicamentos importados por um valor altíssimo, que inviabiliza o acesso para a maioria. Era o momento de fazer a justiça com as próprias mãos, assim como algumas famílias já faziam com o salvo conduto jurídico no Brasil. 

Sempre fui motivado pelos desafios, e naquela hora precisava aprender na prática o que antes parecia ser impossível. Lá vamos nós, com algumas sementes e clones doados anonimamente, começar a cultivar poucas plantas com muito cuidado, amor, esperança, dedicação e estudo para saber o que, quando e como fazer. O mais difícil foi controlar a ansiedade para acesso ao tão esperado remédio.

Hoje estamos tranquilos e protegidos em casa com salvo conduto, mas nem tudo são flores, antes de ter o direito de produzir o próprio remédio garantido na Justiça Federal corremos o risco de ser presos e processados criminalmente por dois anos aproximadamente. Sei que existem muitas pessoas que também se encontram nessa mesma situação que vivemos. 

Acredito que daqui alguns anos iremos nos envergonhar de ter passado tempo proibindo as pessoas de cultivarem flores. Não é justo só minha mãe e algumas outras poucas pessoas terem esse direito. Não posso deixar de mostrar para todos essa terapia magica que é acompanhar as plantas crescendo durante todo ciclo do cultivo desde a germinação da semente até a colheita, secagem e a produção desse potente remédio fitoterápico feito em casa. 

A magia continua até hoje em nossas vidas, desde a primeira vez que minha mãe tomou nosso remédio artesanal e caseiro sentiu melhorar sua qualidade de vida no geral, foram diversos benefícios notados rapidamente como a melhora do humor e do sono, diminuição das dores crônicas, entre outros. Durante um ano e meio minha mãe continuou do mesmo jeito, com uma excelente qualidade de vida e o tumor permanecia estável, sem alteração do tamanho nos exames de ressonância que ela faz a cada seis meses, o que já era muito bom. Em um desses exames de rotina veio outra surpresa, o tumor cerebral da minha mãe havia reduzido consideravelmente e assim está até hoje, com praticamente metade do tamanho que tinha antes, e o melhor é que com esse tamanho atual a cirurgia não é mais indicado pelos mesmos médicos que diziam que ela precisava fazer a cirurgia logo, sem perder tempo.  

 


Raul Thame é professor de educação física, faixa preta de jiu-jitsu e atua há mais de 10 anos em projetos esportivos, culturais e educacionais, iniciativas que promovem o aprendizado de novas modalidades com profissionais qualificados, transformando a vida de muitas pessoas. Atualmente Raul é conselheiro da Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis - SBEC e também secretário municipal da juventude do Partido Verde - PV/SP.

Raul Thame
 

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